Matéria no Correio da Bahia (10/02/08)

Percussão em pauta no Pelourinho


Batidas, timbragens, sonoridades. Alma, força, improviso. A percussão é tudo isso. “Ela é a base da música baiana”, afirma Leonardo Reis, 32 anos, renomado percussionista e um dos organizadores do projeto Tudo é Percussão. O evento promove um encontro para um bate-papo com músicos de destaque no cenário brasileiro e internacional a partir de terça-feira e até sexta, sempre às 14h, na Praça Pedro Archanjo, no Pelourinho, com entrada franca. O projeto conta também com a coordenação do Programa Pelourinho Cultural, da Secretaria de Cultura da Bahia.
O encontro pretende discutir diversos assuntos relativos, à percussão, como criatividade, estilo, técnica e diversidade cultural, entre outros. “Hoje o percussionista baiano é o mais completo do mundo, é o que mais toca, o que mais tem conhecimento, tem alma naquilo que faz”, garante Reis. “Ele aprende na rua, com uma grande facilidade, e adora pesquisar novos instrumentos e timbragens”.

O músico Peu Meurray, com quase 37 anos, acrescenta que no evento o público terá a oportunidade de ter o contato físico com instrumentos que ele vê de longe. “Sou muito feliz, realizado de ser parte do caldeirão de percussão da Bahia. Mas acho que poucos novos músicos são refinados o suficiente para entrar em uma turnê com artistas de grande porte. São muitos instrumentos e sonoridades e nem todos têm o conhecimento amplo deles”, relata.
No Tudo é Percussão, Meurray pretende mostrar timbragens e sonoridades percussivas fora do catálogo, e possibilitar a concepção de novos instrumentos, como é o caso dos tambores que ele faz, usando pneus como matéria-prima. “A percussão é vida. Nosso corpo já é um tambor, o mundo é um tambor. No som do mar, do motor do caminhão”.
Para ele o encontro também mostra a união dos percussionistas. “Hoje o que mais se exporta da música baiana é a percussão. E somos uma classe muito unida. Se amanhã eu precisar de um tambor, com um telefonema eu arranjo. A gente está na mesma concordância, sempre juntos”, revela.

Leonardo Reis afirma que a valorização do percussionista como músico surgiu depois do trabalho realizado por Carlinhos Brown. Isso possibilitou muitos deles saírem do fundo das bandas e passarem para a parte da frente, como é o caso de Meurray, Márcio Victor (Psirico), Alexandre Guedes (Motumbá) e Ninha (ex-Timbalada e atual Trem de Pouso), por exemplo.
“Eu acho isso muito bom. A percussão dá essa liberdade, tem menos regras. Se um guitarrista precisa colocar um fá e ele bota um fá sustenido, muda a coisa, é diferente. Na percussão rola mais improvisos. O percussionista ama música, não se prende, e ele sabe que precisa dar outro passo, quer mais, quer contagiar mais”, alega Reis, que esteve no último Carnaval em dois dias tocando com Gilberto Gil no Trio Expresso 2222.

O próprio ritmo maior da folia momesca mostra as diferenças de como as batidas se encaixam de acordo com o estilo. “Para a axé music, a percussão tem que ser de festa, tem que ser forte, com profundidade, agudo, alegre como é o povo baiano”, garante o músico.
Além de Reis e Meurray, estão confirmadas no evento as presenças de Márcio Victor, Orlando Costa, Gustavo di Dalva, Waltinho Cruz (Chiclete com Banana), Gabi Guedes e Bira Reis. Todos eles já acompanharam e ainda tocam com gente como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ana Carolina e Marisa Monte, entre outros. A mediação do encontro será feita pelo professor de percussão da Ufba Jorge Sacramento. A intenção, a princípio, é só conversar, mas os convidados vão levar seus instrumentos e, como a improvisação é uma das marcas da percussão, deve rolar aquela clássica jam.